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Carvalho,Mário Vieira de – A Música e a Escuta em Os Teclados de T.G.
Os Teclados de Teolinda Gersão é uma narrativa sobre a cultura da escuta.E isso leva a uma questão : o primado da cultura da visão na civilização europeia e a relação entre essa cultura da visão e os mecanismos de dominação sobre a natureza e o ser humano; uma relação tanto mais actual quanto é certo ser hoje o nosso quotidiano profundamente marcado por uma cultura da imagem.
(...) Não é a escuta que orienta os míssies,é a visão.Se o racismo começa na visão,na distinção da cor da pele ,também a guerra começa e acaba numa cultura da imagem.Testa-se a imagem computorizada do alvo,implantada no míssil,e o efeito visual produzido pela explosão das bombas (ainda que a explosão seja audível a quem lá está por perto).Pelo contrário : o que faz do amor,amor, distinguindo-o de um mero exercício de dominação,talvez seja a escuta do outro; e quando se trata de paz ela parece igualmente impossível sem diálogo e sem escuta.
Escutar-se,escutar os outros,o mundo,a natureza,o universo,o cosmos, escutá-los como música ,escutá-los na música, é o pano de fundo de Os Teclados. Não a escuta como uma alternativa à visão,mas sim o equilíbrio entre ambas como alternativa a uma cultura inteiramente dominada pela imagem.
Para o tio Octávio,Beethoven está no cimo da escada,enquanto Mozart nem sequer chega ao primeiro degrau. O tio Octávio cria à sua volta um universo dir-se-ia concentracionário, a sua forma de escutar Beethoven é a negação da escuta, porque é a negação da abertura aos outros,do diálogo. Júlia,porém,aprendera com Mozart a “saber ouvir” e saber ouvir era o contrário de tudo o que o tio Octávio representava: não era nem dominação sobre os outros,nem sobre a natureza. “Mozart aprendia até com os pássaros,ela nunca os ouvia cantar sem pensar nisso”. E Júlia descobre : “Ouvir era um segredo,era uma absoluta atenção às coisas.Tudo ficava suspenso,no vazio.E depois o som acontecia”
Os Teclados é também testemunho de cultura musical,de conhecimento do teclado e dos seus segredos e da forma como tudo isso é relacionado com uma cultura da escuta no sentido mais lato. “As muitas vozes das coisas.Puro jogo,como o do mar e das ondas.”Eis o lado mimético da música. Outro exemplo,este da biogénese da música: “ E o ritmo,vinha de onde ?Do corpo,talvez,do coração batendo”.Um terceiro exemplo: “Ouvir era tomar parte na luta entre a medida e o caos. A música era uma forma de medir e de organizar o tempo”.Aqui temos a verificação da dimensão logogenética da música,uma ideia que,no plano da história das ideias estético-musicais ora prevalece sobre as anteriores,ora se subsume,de certo modo,nelas.
A ideia da música como uma ordem cosmológico-racional domina a teoria de todas as culturas da antiguidade e é consagrada no quadrivium medieval. Nesse mesmo sentido,para Júlia,a música contrariava a ideia de que no mundo nada tivesse a ver com nada :”A música era a arte de ligar”.”Havia matemática no universo,a música era a sua forma audível e palpável?” A personagem responde afirmativamente,pois tem a vivência dessa anagogia ao tocar : “era o universo que pulsava através do seu corpo ?quando julgava tocar livremente,era às leis de uma mecãnica cósmica que obedecia?” Aqui parece estar próxima,e conscientemente,da definição leibniziana : “ a música é um exercício aritmético de uma alma que não sabe que calcula”.
Júlia pensa: “Havia relação entre a estrutura do cosmos e a música.” O texto explicita a ideia dos Antigos,para que remete uma tal abordagem da música : Pitágoras,Platão,Kepler.A música como “matemática pura”.Por isso mesmo,situando-se no domínio do “ethos”,a música “curava as almas,porque as fazia regressar à origem”.
Talvez seja esta insistência na dimensão cosmológico-racional,que priviligia na música a relação entre ordem e ethos,por oposição à relação entre linguagem e pathos,que permite a Teolinda Gersão especular sobre as relações estruturais entre a música e a escrita,surpreender,por exemplo,o carácter teleológico – a previsibilidade – da forma-sonata e compará-la à de uma narrativa ficcional.
MARIO VIEIRA DE CARVALHO
( versão abreviada do texto publicado em Saberes no Tempo,Revista da FCSH,edição especial de homenagem a Maria Henriqueta costa Campos,Lisboa 2002.)
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