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Os sons que organizam mundos externos e interiores
Tomando a música como medida de todas as coisas, Os Teclados, de Teolinda Gersão, explora destinos por meio de metáforas da harmonia musical
Por Fábio Lucas
Que dizer da novela Os Teclados, de Teolinda Gersão, que se inicia com estas palavras: “Em criança ela rezava por Mozart?” Mas Júlia, a protagonista, era forçada a silenciar sua preferência diante do Tio Octávio, para quem “Beethoven está no alto da escada”, acrescentando: “Mozart fica lá em baixo, tão longe que não se vê.” (p. 10). Raramente na história da ficção estiveram tão unidas as duas vertentes da expressão artística: a palavra e a música.
A Estética, desde os primórdios, vem sustentando que existem artes que se desenvolvem no tempo (literatura e música), artes que se desdobram no espaço (pintura, escultura, arquitetura) e artes que se realizam no espaço e no tempo simultaneamente (Charles Lalo exemplificava com o drama wagneriano).
A memória coletiva da arte literária nos faz acolher nomes e situações em que as irmãs gêmeas – música e literatura – andaram se entrelaçando em elevado nível de manifestação. Estruturas fonéticas e ritmos integram a história da poesia, que sempre utilizou a sonoridade para aumentar a imprecisão do significado e evitar as construções por demais lógicas nas composições. O Simbolismo, necessitado mais de sugestões e jogos de sombras, deu ênfase à imagem sonora de poesia. E romancistas como Marcel Proust e Thomas Mann não resistiram à tentação de sua prosa, além de refletir esteticamente sobre o elemento acústico agregado à configuração ou ao drama de certas personagens. Em Tristan (1903), de Thomas Mann, a música se apresenta como expressão de poderes irracionais e freqüentemente destrutivos.
Os Teclados de Teolinda Gersão, além de articular uma narrativa de fundo dramático, propicia ao leitor instantes especialmente felizes de reflexão sobre a arte musical, projetando, em termos de metalinguagem, a metáfora da arte sobre a trajetória existencial da protagonista. “As muitas vozes das coisas. Vozes de Bach, jogando umas com as outras, cruzando-se, convergindo, divergindo. Puro jogo, como o do mar e das ondas. Assim o mundo era feito”, diz a consciência da narradora, externada em faixas de estilo indireto livre. Na mesma atmosfera de relato intimista, temos: “Mas tudo o resto – claxons, vozes, sirenes, máquinas, – podia ser também uma forma de música. E mesmo o silêncio fazia parte de ouvir – o silêncio entre uma coisa e outra, a respiração ou a pausa, antes que outra coisa acontecesse.” (p.15).
Como entra o “teclado” na vida da personagem? De início, a narrativa nos fornece uma pista, pois, sob várias pressões psicológicas da convivência doméstica, cheia de bloqueios, a personagem se vê obrigada a construir mentalmente o teclado em que pudesse executar seus exercícios imaginários, sem atritos com a família.
Na seqüência do enredo, a protagonista, Júlia, em sala de espera do dentista, se depara com um suplemento de domingo em que “uma mulher falava de um teclado. Não era o de um piano, apenas o de um computador, verificou decepcionada” (p. 51). Na efervescente vida interior da personagem o “teclado” cresce nas suas especulações. Ela atira-se à essência do romance, passeia pela entrevista da mulher, colhe trechos: “O teclado permitia maior velocidade do que a caneta, uma vez que ambas as mãos participavam e se podiam usar todos os dedos” (p. 53). Então, o paralelismo inevitável entre música e literatura rompe decisivo: “Mas os livros acontecem no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, com a música, uma forma de medir e de organizar o tempo” (p. 54).
Aí começa a crescer a novela, na medida em que a protagonista enreda-se na dor moral que a submete: “Na música tudo estava ligado a tudo, a música era a arte de ligar” (p. 60). Seu relacionamento com uma conhecida, Lúcia, traz-lhe novas luzes à alma e ela, atormentada, vai realizando o que a música inspira: dar ordem ao mundo, reduzir o caos a um número inteligível. Baixa à sua consciência o mito grego do Minotauro, quem sabe transfigurado no piano.
Então, as reflexões de Júlia pousam fundo na esfera do espírito: “Quando tocava era o universo que pulsava através do seu corpo, ela era uma boneca mecânica, com que o universo brincava? Quando julgava tocar livremente, era às leis de uma mecânica cósmica que obedecia?” Adiante: “Quanto mais mecânica mais livre, porque mais próxima do pulsar do mundo. O mecanismo incluía a emoção e a beleza em estado puro: Também a primavera era mecânica, o abrir das flores e o bater das ondas” (pp. 66 e 67).
A pequena novela vai num crescendo produzir seu ponto alto de expressão quando nos deparamos com o trecho que ousamos reproduzir: “E foi assim que um dia falou do número. Através da medida, o caos transformava-se em cosmos. Idéias antigas, que tinham atravessado os milênios. O cosmo era o universo ordenado, regido por leis e princípios inteligíveis aos humanos. Através de uma regra interior, o universo escapava ao acaso. Havia relação entre a estrutura do cosmo e a da música. A primeira música era a de cada planeta. O movimento dos planetas era música, a música era o princípio de tudo, a expressão de poderes superiores que governavam o mundo. Cada corpo celeste possuía uma nota e um acorde específico, o conjunto traduzia a harmonia do universo. Aqui em baixo, na terra, só o ouvido sutil a podia alcançar: através de tudo o que existia, podia ouvir-se, com esse ouvido interior, a harmonia superior que governa o mundo. Que se passa, Júlia?” (pp.71 e 72).
Que se passa, então? De início, Júlia prendeu seu destino a um pobre mestre provinciano e, depois, o destino força-a a tomar uma atitude heróica, a desafiar o temido professor Mendonça, conquistando, finalmente, a liberdade que lhe faltava. A heroína se conquista na linha da arte, domina o seu ofício, pacifica a mente e compreende melhor a relação profissional com o mundo e suas leis. “A música curava as almas”, está dito alhures em Os Teclados (p. 78). Mas poucas vezes o leitor terá tido, em nossos dias, um correlato tão perfeito entre música e palavra, entre narrativa e pensamento, entre projeto e realização. Uma orquestração de efeitos estéticos.
OS TECLADOS, de Teolinda Gersão. D. Quixote, 95 págs. O livro pode ser adquirido na Livraria Portugal (tel: 0XX11-3104-1748) por R$ 23,00.
Fábio Lucas, crítico literário, é presidente da União Brasileira de Escritores/SP e autor de Luzes e Trevas – Minas Gerais no Século XVIII
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