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A visualidade como proposta de leitura da obra de
Teolinda Gersão : paisagem com mulher e mar ao fundo
Maria dos Prazeres Mendes
( USP-PUCSP )
Resumo: A pretexto de revelar Portugal advindo das guerras coloniais, imerso em seus efeitos desastrosos, Teolinda Gersão rompe com as expectativas de uma narrativa de cunho temático-social, para tecer linguagem poética: ao contracenar com o mar, as personagens deixam-se contaminar com seus movimentos, fluxos e refluxos, em ondas de linguagem que fluem e refluem, do vivido ao imaginado. Teolinda Gersão expõe esse mar com linhas e cores, confronta-o com a paisagem arenosa, dimensiona-o a partir da visão dele se tem do alto das rochas, lança-o como limite da sensibilidade e da reflexão da mulher que se faz elemento paisagem, coisificada e quase anulada. Palavras que desenham imagem, palavras que revelam a paisagem mas também denunciam relações de domínio e submissão entre o real e o imaginário.
Palavras-chave: narrativa ,linguagem poética, visualidade, metáfora.
"O que em cada momento está dentro do olho é o que o olho em cada momento é , todo o querer ser através dos sentidos, e principalmente através do olhar, não através do "cogito" da distinção e do distanciamento. Ser é um ato conjunto de apreender e ser apreendido: a existência-sujeito e a existência-objeto isoladas não existem. "
Alberto Pimenta
Paisagem com mulher e mar ao fundo, obra de Teolinda Gersão tem marcas de modernidade, de crise do gênero, de maior envolvimento do receptor com a decifração. Essa ruptura faz-se em termos de visualidade, promovendo campos icônicos que atenuam a carga de referencialidade factual e ideológica de caráter terceiro, ou simbólico, que permeia o discurso metafórico: a obra trata das consequências da guerra de Portugal com as colônias de África, e das agruras da convivência com a ditadura de Oliveira Salazar (O . S. ).
Isso não se faz de maneira linear. Dá-se o emaranhado de tempos e espaços a partir do entrelaçamento de vozes, como coloca a autora coloca no prefácio da obra: " O resto do texto também não é meu. De diversos modos foi dito, gritado, sonhado, vivido por muitas pessoas e por isso o devolvo, apenas um pouco mais organizado debaixo desta capa de papel, a quem o reconheça como coisa sua ". (GERSÃO, 1982 )
A narrativa é feita de pedaços - vidas cortadas, "estilhaçadas" , "o que desenha a linha que vai cerzindo esses pedaços é a visão que Hortense tem do mundo, da vida" (MAGALHÃES, 1987, p. 25).
Para Bakhtin, a percepção artística só se revela no que está além do campo de visão do outro. Para ele, não interessa constituir a unidade do campo de visão e da percepção humana, mas exatamente seus pontos de inacabamento, que se complementam com a visão do outro. Esta é a mais íntima relação entre arte e vida. (MACHADO, 1994).
Em conseqüência, é impossível definir a figura do autor independente da relação com seus personagens visto que estamos diante de relações dialógicas. Trata-se, antes de mais nada, da manifestação de concepções de mundo divergentes, de pontos de vista diferenciados e nem sempre concluídos, por isso mesmo capazes de gerar polifonia.
Ao dar fala à personagem, o narrador monológico é substituído em nome da valorização dos sujeitos discursivos e da bivocalidade. Eis a alma da polifonia: as vozes que entram para a constituição do romance são sujeitos plenivalentes daquilo que enunciam porque são, sobretudo, idéias em confronto, são pontos de vista em constante interação. Não se trata de autor-criador, mas autores-sujeito cujos discursos se apresentam em constante interação.
Para Bakhtin quanto mais diversificado for o plano discursivo da obra - autor, narrador e personagens - maior será a dimensão estilística e dialógica fundamental para o surgimento da polifonia. "A luz do dialogismo, o romance não somente conta uma história, mas o romance fala. O texto do romance fala com enunciações articuladas, com o contexto da fala onde se situa o não-dito e com pensamentos, inclusive memórias de épocas e gêneros. Por isso o texto do romance é sempre um discurso citado, conceito formulado por Bakhtin como forma de apreender a palavra em sua funcionalidade, onde ela não só representa, mas ela própria é objeto de representação. Como veículo de representação, a palavra se reporta à composição temática; como objeto, ela é discurso dos personagens, do narrador, do gênero, do momento histórico ou, como preferiu Bakthin, é voz". (MACHADO, 1994, p. 109)
A idéia básica de Bakhtin é que todo romance deveria ser lido como um texto entre aspas. A enunciação nele reproduzida não é emissão de uma voz narradora, mas transmissão do discurso de outrem citado pelo autor. O caráter fictício do romance é sua condição de discurso de representação, ou seja, um discurso bivocalizado. (BAKHTIN, 1988)
Isabel Magalhães ( 1987, 420) analisa a obra Paisagem com mulher a mar ao fundo, observando que o texto é tripartido:
-parte I : tempo presente na vida de Hortense, narradora principal da obra, em angústia e vazio; tentativas de suicídio pela morte de Haroldo, o marido, "sem motivo nem finalidade", em oposição a Clara e Pedro, o filho: "outros modos de viver" .
-parte 2 : tempo das memórias de Hortense : infância e adolescência, ela e Horácio (mortes do marido e do filho) mais o povo (emigração, guerra, prisões, exílio) anos 60/70 - realidade histórica do povo português como pano de fundo político-social da vida deste romance.
-parte 3 : presente de Hortense (logo a seguir ao da 1ª parte) Clara está vazia e desesperada (suicídio: vida sem Pedro) Hortense recobra energia e a salva. Festa na vida coletiva (25 de abril).
Confrontaríamos, porém, esse caráter tripartido do texto de Teolinda Gersão com a constatação de que há dois eixos em torno dos quais os temas recorrentemente se arquitetam. Variações sintagmáticas são elaboradas em torno de dois paradigmas, em jogo metonímico, resultando na construção da metáfora.
O primeiro jogo metonímico refere-se às relações entre casa e corpo: rosto/corpo/voz de um lado e casa/paisagem/mar/espelho de outro, estabelecendo, por sua vez, analogia com vida e morte.
Junto a essa metonimização do texto, há o trabalho com a sonoridade, articulando também o caráter poético e metafórico da narrativa: " A casa rondando o Verão, rasando o Verão, voando em torno, em vôos cada vez mais baixos, abrindo as suas portas para prender o Verão, mas sempre o Verão evadindo-se através de todas as portas (...)". (GERSÃO, 1982, p. 18)
Esse caráter poético ( relação intercambiável entre metonímia e metáfora) faz-se em jogo com as marcas de referencialidade (guerra de África e ditadura de O . S. ) em intervalos de tempo desconexos, em tempo de sensações e reflexões trazidas pela memória, fazendo o imaginário confluir e confundir-se com os fatos do tempo "real". Ou como conclui Magalhães : "a ausência de controle do tempo, a falta de razão e finalidade que dão sentido à temporalidade, conduzem à sensação de que tudo acontece inesperadamente: o tempo em "confusos nós vertiginosos".
Podemos verificar esse trajeto de rupturas e poeticidade, que geram extrema visualidade no percurso de leitura da obra Paisagem com mulher e mar ao fundo, quando da correspondência icônico-simbólica entre o espaço da página (intervalo) e o que se narra. Mais precisamente à página 14, o leitor encontra grande espaço em branco separando dois parágrafos (sempre iniciados pela letra minúscula), o primeiro descrevendo " uma pausa na sua obscura luta contra o o mundo" , e o segundo, continuando a reflexão (após o espaço em branco) : "percorrer cem vezes o espaço entre a janela e a porta (...)". Ou como vemos em outro intervalo de texto situado entre dois grandes espaços:
"e agora ele assomava outra vez de manhã cedo e atravessava a aldeia para fugir aos sonhos e, colado a cada casa, emergindo de um buraco no cimento, de um palmo de terra entre dois tijolos, de um minúsculo canteiro entalado entre dois muros, havia sempre um pé de flores-da-noite, amarelas, azuis, vemelho-claro ou escuro, talvez de todas as cores possíveis, combinadas, e em todas as esquinas, ruas, varandas, escadas, labirintos, assomava sempre e de repente o mar, o mar, de repente, entre duas paredes, duas portas, dois muros, dois batentes de janela, o mar como um espelho ". (GERSÃO, 1982, p. 21)
O caráter cinematográfico dessa descrição, a imagem de espaços em entremeios labirínticos, provoca o olhar do leitor que visualiza a cena e sente a tensão que decorre de sua sintaxe. São elos metafóricos, construídos a partir de lances metonímicos feitos em "close-up ", montados em " travelling ".
Há sempre as imagens das palavras como palavras-coisas ou mesmo palavras-labaredas , as palavras de O . S. :
" porque não era possível lutar contra as palavras, riscá-las, quebrá-las, anulá-las, elas transformavam-se noutras, renasciam sempre, outra vez, em labaredas." (GERSÃO, 1982,p. 83)
A metáfora das palavras como casas propõe o outro lado: as palavras de oposição, abafadas, limitadas, presas:
"Ela perdera sua vida, e por isso o universo era caótico e informe, soube. Tinha havido tempo em que as palavras eram as casas das coisas, e quando se transpunha a porta das palavras as coisas estavam lá, sossegadas e familiares, guardadas e disponíveis, prontas para usar de novo. Mas agora as coisas tinham partido de dentro das palavras, e quando ela empurrava as portas as palavras eram casas vazias, e ela não saberia mais o lugar de coisa alguma ". ( GERSÃO, 1982, p. 15)
Trata-se de estar-se impedido de captar o real no esfacelar do tempo:
"ou era ela que perdera a capacidade de atravessar o tempo porque o seu corpo era demasiadamente leve, não tinha a densidade nem forma e a qualquer momento podia desmoronar-se em mil partículas e ser espalhado em todos os sentidos pelo vento. O real tinha-se tornado num jogo de transparências (...)". (GERSÃO, 1982, p. 23)
A associação da personagem com a paisagem, gerando reflexos, como outro recurso metafórico utilizado pela autora, gera elos que intensificam a visualidade do texto. Vejamos:
"ela andava em todos os sentidos do vento e continuava emparedada, como o vento andando em roda, dentro de muros, enrodilhando-se, enovelando-se sobre si mesmo, dentro de um espaço exíguo, e a tensão crescendo sempre, no vazio (...) deixar cair todas as palavras, porque todas se equivaliam e nenhuma tinha sentido algum ".( GERSÃO, 1982, p. 14)
"Era uma voz que paralisava e entorpecia, e quem ficasse escutando acabaria por ceder ao encantamento, desceria a correr as escadas do mar e ficaria mil anos dormindo no fundo, o corpo transformado em pedra". (GERSÃO, 1982, p. 32)
É a metáfora que se esvazia. Há a urgência de explicitar sensações e sentimentos mas a insuficiência de meios ( o vazio da palavra) impede a concretização da fala. Essa constatação se faz de modo a se criar mais um efeito visual: o emparedar do vento dentro de um espaço exíguo.
Esse caráter reflexivo, em ambos os sentidos - o refletir processado pela mente e o refletir como espelho, faz-se em intervalos de flagrantes do mundo, a realidade de seu tempo e espaço. A terceira pessoa assume o narrar e o circunstancializa:
"Ela acorda numa casa vazia, levanta-se devagar, porque também o seu dia é longo e por nenhuma coisa preenchido. Sua vida quebrada ao meio. O homem que ela amava estava morto e não veria jamais seu filho". ( GERSÃO, 1982, p. 29)
Intervalo que se faz preencher novamente no presente, dissipando a visão realista, em novos reflexos - a primeira pessoa que narra - erigindo a opacidade do discurso: evidencia-se aqui a metonímia como elemento construtor da desreferencialização do real:
"Teu corpo estilhaçado na memória. Nem mesmo sei mais como é o teu corpo, Clara. Ou sei, apenas fragmentos. Cabelos, olhos, boca, seios, mãos. Mas o sorriso foge. Quero uma imagem parada no tempo, sempre igual, e não a encontro. Porque de cada vez o rosto se desmancha. E as fotografias são mais irreais do que a memória ". ( GERSÃO, 1982, p. 50)
Percebemos, assim, ao longo da narrativa, vozes emparelhadas, entrecortadas, discursos enovelados em tempo difuso a propor o dilema do próprio narrar.
Fica, por fim, a marca metafórica do desejo, do grito que anula a impossibilidade da fala, evocando a possibilidade de mudança da realidade: a morte de O . S., o fim da ditadura, a volta dos homens que guerreavam e o fim da espera junto ao mar:
"Acordar de noite e lutar contra o mar. Impor, sobrepor, a minha voz à sua. Acima do seu canto o meu grito, mais lato que a sua música a minha raiva, o meu choro, a minha discordância. Atirar pedras, facas, contra o mar. Fechar contra ele todas as portas e janelas. Contra o seu infinito a minha finitude. Partir o mar como se fosse um espelho ". ( GERSÃO, 1982, p. 59)
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